— Vê mais uma bem gelada — disse o tal de cabelo preto e gravata. E logo chegou a vigésima quinta garrafa de cerveja, posta na mesa cuidadosamente pelo garçom, cujo rosto deteriorado pelo cansaço não significava nada àquele grupo de irmãos (Assim é que chamavam uns aos outros: — Fulano é meu camarada, meu irmão).
O japonês era o que se mantinha mais lúcido; sabia que chegar em casa fedendo complicaria sua vida com a patroa e não conseguiria dormir o suficiente pra trampar no outro dia. O outro, loiro de cabeça raspada, entendia-o muito bem, vivia coisa parecida, mas quem enchia o saco era a mãe. O negro não; era dono de si, dono das suas satisfações, não as dava a ninguém. Parecia adulto, consciente de cada gesto, cada palavra. Assim como o ruivo de sardas, solteiro, livre do aborrecimento das mulheres.
Os cinco bebiam. Enchiam a cara. Por prazer, porque era isso que restava.
— Meu, faz tempo que não fodo. Tô quase apelando pra punheta — disse o ruivo de sardas.
— Pega uma puta, caralho — sugeriu o japonês, sem perceber quem tinha se queixado.
— Qual o mal de bater uma? Tem que bater uma todo dia. Ajuda a viver — filosofou o loiro de cabeça raspada.
— Eu sei — disse o ruivo. — Mas sempre achei que bater punheta era se confessar sem mulher.
— Mas você está sem mulher — observou o negro, já entediado. — Ou você finge até pra si mesmo?
— Faz o seguinte: vai no banheiro e resolve isso. Só lava a mão quando voltar. Odeio pegar, mesmo indiretamente, no pau ou na porra dos outros — disse o japonês, reparando em como o de gravata olhava a barba do garçom que limpava a outra mesa.
— Melhor — concluiu o engravatado, desviando os olhares que percebeu terem sido notados —, vai pra casa. Ficaria incomodado de estar próximo de alguém que acabou de acariciar um pau que não é o meu.
Todos concordaram. O ruivo largou uns trocados na mesa e partiu, cambaleando e se tocando, rumo ao carro. Livres de perturbações, o resto dos irmãos discutiram futebol.
Foi quando ela chegou. Exuberante, não havia quem não a notasse. Tudo ficou assim um pouco mais iluminado. Cabelos na cintura, vermelho-fogo, vestido justo, azul-céu, sandálias prata de salto muito alto. Sem batom, apenas com um brilho nos lábios. Unhas sem nenhuma pintura. Pernas magnificamente torneadas. Seios, durinhos. Ela queria usar o banheiro — “toalete”, na sua voz estranhamente suave. Perguntou a direção ao garçom e caminhou sem olhar pros lados até a fila de meninas que aguardavam a vez ajeitando os cabelos e cochichando sobre os moços do bar. Ele, após dar a devida informação, sorriu malandro pros irmãos.
— É homem. É um bicha! — disse o de gravata.
— Que nada! Gostosa desse jeito? — indagou o negro.
— Sim, é uma bicha! — retrucou o irmão de colarinho branco. — Uma merda de uma traveca! Não sei por que não matam essas porras!
— Um traveco, meu irmão — corrigiu o japonês —, não dê o gostinho de chamá-lo no feminino.
— Meu, não vê que ela tá na fila do banheiro das mulheres? — insistiu o negro.
— E você acha que ela ia dar bandeira? — continuou o de gravata. — Trancada numa cabine, ninguém vê se ele mija em pé ou sentado.
— Tio, compra uma flor? — um menino magro, pardo, feio e sujo perturbava os irmãos. Carregava uma cesta cheia de rosas, algumas brancas, outras vermelhas.
— Hoje não, garoto — respondeu seco o irmão de gravata.
— Vai pedir pra sua mãe trabalhar — disse o negro. O menino se afastou, tão apático quanto quando se aproximou.
— Nossa, como fede! — observou o irmão de cabeça raspada.
— Olha, o veado entrou no banheiro — avisou o japonês.
— É mulher! Eu já comi — confessou o de cabeça raspada.
— Comeu? — se surpreendia o negro. — Viu a boceta?
— Vi — afirmou implacável o cabeça raspada. Dentro de si, a dúvida: gostava dos rabos, e às vezes a bebida não deixava ver se tinha uma boceta ali perto. Mas não era possível, era a porra de uma mulher.
— Então é puta — concluiu o negro. — Bonita desse jeito, só pode ser puta.
— Pena que o truta foi embora — disse o oriental, referindo-se ao brother ruivo. — Uma puta dessa ia aliviar bonito as necessidades do cara.
— Não acredito que seja mulher — disse o de gravata ao de cabeça raspada. — Vai lá e comprova. Se você realmente comeu aquilo ali, aposto que tava louco e meteu no cu sem perceber.
— Beleza — concordou o cabeça raspada, levantando-se e indo com pressa em direção ao banheiro. Mais do que ninguém, precisava resolver aquela história.
— Mete logo a mão entre as pernas dela — ordenou o japonês. — Se for mulher, é puta, então traz pra gente.
— Mas se sentir as bolas — continuou o negro —, põe pra correr e avisa pra não aparecer por aqui.
O loiro de cabeça raspada aguardou nervoso ela sair do banheiro. Quando saiu, segurou-a pelo braço.
— Ei, boneca!
Ela o fitou. Séria, como se o odiasse, não disse uma única palavra. A força e a raiva que vinham dos seus olhos barraram qualquer som que o loiro de cabeça raspada pudesse emitir. Atônito, ele só pensava em como aquilo, em como ela era bonita, como seus olhos eram bonitos. Cinzas, talvez roxos. Tantas cores vinham dela: seu vestido azul, seus cabelos vermelhos, seus lábios brilhantes, seus olhos... tanta luz. Soltou-a.
— Desculpe.
— Tia, compra uma flor? — o demoniozinho magro, pardo, feio e sujo outra vez.
Ela abaixou-se, ficou à altura do menino. Acariciou-lhe o rosto, beijou-o com uma ternura maternal. Pegou duas rosas, uma branca e uma vermelha. Levantou-se, fitou o sujeito sem cabelo novamente. Parecia mais alta, a olhá-lo de cima.
— Pra você.
O loiro de cabeça raspada olhou para as mãos dela; entregavam-lhe a rosa vermelha. Sem saber por quê, aceitou-a.
Ela fechou os olhos e cheirou profundamente sua rosa branca. Aberta, com grandes pétalas, tão alva que passava a ideia de coisa limpa. Casando perfeitamente com suas mãos, nuas de pintura.
— Natasha! — gritou ao longe uma voz rouca. E sem encarar outra vez o sujeito que incomodava, ela foi embora sem olhar pra trás, sem olhar pros lados.
Tudo ficou assim um pouco mais escuro. Na luz falha do bar, a rosa vermelha parecia ter manchas esquisitas, parecia um tanto podre. O irmão de cabeça raspada jogou-a no chão. Tentou lembrar da voz dela, no momento em que lhe ofereceu a flor, mas não conseguiu. Sentiu-se um tolo, incapaz de compreender qualquer coisa, até a básica diferença entre os seres.
Ao vê-la passar, o irmão de gravata não titubeou:
— É traveco, um pervertido passando por mulher.
— Ou mulher, tão gostosa que parece um traveco — ironizou o japonês.
— E aí? — disse o negro ao de cabeça raspada, vendo-o chegar — Conferiu se tinha bolas?
— Não. Não consegui.
— Como não? — indignou-se o de gravata. — Não viu se era traveco? É claro que é, meu! E a gente querendo passar pro sardento...
— Logo ele que odeia essas merdas — disse o negro.
— Não odeia mais do que eu — garantiu o japonês, fitando os olhos do de gravata.
— Mas você não percebeu, assim de perto, que nada ali era natural? Peito, bunda, cabelo, até os olhos, daquela cor esquisita, falsa? — continuou o negro. — Aliás, foi ela quem você comeu?
— Não sei. Não a reconheci, mas achei que me olhou como se me conhecesse. Tinha tanto ódio nos seus olhos... E ninguém odeia quem não conhece. Ela me olhou de uma maneira... Eu não entendi o seu olhar. E fiquei sem reação por causa da força que ele tinha. Uma força que não sei se é boa, não sei se é má. Uma coisa tão esquisita. Sabe, não sei quanto ao peito, quanto às bolas, mas seus olhos, eles com certeza... — hesitou, mas admitiu — eram naturais.
Não querendo entender nada, aquele papo besta, o de gravata não pensou duas vezes:
— Ô garçom, mais uma breja! Pessoal, falando em bolas, alguém viu o penalty que aquele filho da puta perdeu?


