sábado, 31 de outubro de 2009

Ela



— Vê mais uma bem gelada — disse o tal de cabelo preto e gravata. E logo chegou a vigésima quinta garrafa de cerveja, posta na mesa cuidadosamente pelo garçom, cujo rosto deteriorado pelo cansaço não significava nada àquele grupo de irmãos (Assim é que chamavam uns aos outros: — Fulano é meu camarada, meu irmão).

O japonês era o que se mantinha mais lúcido; sabia que chegar em casa fedendo complicaria sua vida com a patroa e não conseguiria dormir o suficiente pra trampar no outro dia. O outro, loiro de cabeça raspada, entendia-o muito bem, vivia coisa parecida, mas quem enchia o saco era a mãe. O negro não; era dono de si, dono das suas satisfações, não as dava a ninguém. Parecia adulto, consciente de cada gesto, cada palavra. Assim como o ruivo de sardas, solteiro, livre do aborrecimento das mulheres.

Os cinco bebiam. Enchiam a cara. Por prazer, porque era isso que restava.

— Meu, faz tempo que não fodo. Tô quase apelando pra punheta — disse o ruivo de sardas.

— Pega uma puta, caralho — sugeriu o japonês, sem perceber quem tinha se queixado.

— Qual o mal de bater uma? Tem que bater uma todo dia. Ajuda a viver — filosofou o loiro de cabeça raspada.

— Eu sei — disse o ruivo. — Mas sempre achei que bater punheta era se confessar sem mulher.

— Mas você está sem mulher — observou o negro, já entediado. — Ou você finge até pra si mesmo?

— Faz o seguinte: vai no banheiro e resolve isso. Só lava a mão quando voltar. Odeio pegar, mesmo indiretamente, no pau ou na porra dos outros — disse o japonês, reparando em como o de gravata olhava a barba do garçom que limpava a outra mesa.

— Melhor — concluiu o engravatado, desviando os olhares que percebeu terem sido notados —, vai pra casa. Ficaria incomodado de estar próximo de alguém que acabou de acariciar um pau que não é o meu.

Todos concordaram. O ruivo largou uns trocados na mesa e partiu, cambaleando e se tocando, rumo ao carro. Livres de perturbações, o resto dos irmãos discutiram futebol.

Foi quando ela chegou. Exuberante, não havia quem não a notasse. Tudo ficou assim um pouco mais iluminado. Cabelos na cintura, vermelho-fogo, vestido justo, azul-céu, sandálias prata de salto muito alto. Sem batom, apenas com um brilho nos lábios. Unhas sem nenhuma pintura. Pernas magnificamente torneadas. Seios, durinhos. Ela queria usar o banheiro — “toalete”, na sua voz estranhamente suave. Perguntou a direção ao garçom e caminhou sem olhar pros lados até a fila de meninas que aguardavam a vez ajeitando os cabelos e cochichando sobre os moços do bar. Ele, após dar a devida informação, sorriu malandro pros irmãos.

— É homem. É um bicha! — disse o de gravata.

— Que nada! Gostosa desse jeito? — indagou o negro.

— Sim, é uma bicha! — retrucou o irmão de colarinho branco. — Uma merda de uma traveca! Não sei por que não matam essas porras!

— Um traveco, meu irmão — corrigiu o japonês —, não dê o gostinho de chamá-lo no feminino.

— Meu, não vê que ela tá na fila do banheiro das mulheres? — insistiu o negro.

— E você acha que ela ia dar bandeira? — continuou o de gravata. — Trancada numa cabine, ninguém vê se ele mija em pé ou sentado.

— Tio, compra uma flor? — um menino magro, pardo, feio e sujo perturbava os irmãos. Carregava uma cesta cheia de rosas, algumas brancas, outras vermelhas.

— Hoje não, garoto — respondeu seco o irmão de gravata.

— Vai pedir pra sua mãe trabalhar — disse o negro. O menino se afastou, tão apático quanto quando se aproximou.

— Nossa, como fede! — observou o irmão de cabeça raspada.

— Olha, o veado entrou no banheiro — avisou o japonês.

— É mulher! Eu já comi — confessou o de cabeça raspada.

— Comeu? — se surpreendia o negro. — Viu a boceta?

— Vi — afirmou implacável o cabeça raspada. Dentro de si, a dúvida: gostava dos rabos, e às vezes a bebida não deixava ver se tinha uma boceta ali perto. Mas não era possível, era a porra de uma mulher.

— Então é puta — concluiu o negro. — Bonita desse jeito, só pode ser puta.

— Pena que o truta foi embora — disse o oriental, referindo-se ao brother ruivo. — Uma puta dessa ia aliviar bonito as necessidades do cara.

— Não acredito que seja mulher — disse o de gravata ao de cabeça raspada. — Vai lá e comprova. Se você realmente comeu aquilo ali, aposto que tava louco e meteu no cu sem perceber.

— Beleza — concordou o cabeça raspada, levantando-se e indo com pressa em direção ao banheiro. Mais do que ninguém, precisava resolver aquela história.

— Mete logo a mão entre as pernas dela — ordenou o japonês. — Se for mulher, é puta, então traz pra gente.

— Mas se sentir as bolas — continuou o negro —, põe pra correr e avisa pra não aparecer por aqui.

O loiro de cabeça raspada aguardou nervoso ela sair do banheiro. Quando saiu, segurou-a pelo braço.

— Ei, boneca!

Ela o fitou. Séria, como se o odiasse, não disse uma única palavra. A força e a raiva que vinham dos seus olhos barraram qualquer som que o loiro de cabeça raspada pudesse emitir. Atônito, ele só pensava em como aquilo, em como ela era bonita, como seus olhos eram bonitos. Cinzas, talvez roxos. Tantas cores vinham dela: seu vestido azul, seus cabelos vermelhos, seus lábios brilhantes, seus olhos... tanta luz. Soltou-a.

— Desculpe.

— Tia, compra uma flor? — o demoniozinho magro, pardo, feio e sujo outra vez.

Ela abaixou-se, ficou à altura do menino. Acariciou-lhe o rosto, beijou-o com uma ternura maternal. Pegou duas rosas, uma branca e uma vermelha. Levantou-se, fitou o sujeito sem cabelo novamente. Parecia mais alta, a olhá-lo de cima.

— Pra você.

O loiro de cabeça raspada olhou para as mãos dela; entregavam-lhe a rosa vermelha. Sem saber por quê, aceitou-a.

Ela fechou os olhos e cheirou profundamente sua rosa branca. Aberta, com grandes pétalas, tão alva que passava a ideia de coisa limpa. Casando perfeitamente com suas mãos, nuas de pintura.

— Natasha! — gritou ao longe uma voz rouca. E sem encarar outra vez o sujeito que incomodava, ela foi embora sem olhar pra trás, sem olhar pros lados.

Tudo ficou assim um pouco mais escuro. Na luz falha do bar, a rosa vermelha parecia ter manchas esquisitas, parecia um tanto podre. O irmão de cabeça raspada jogou-a no chão. Tentou lembrar da voz dela, no momento em que lhe ofereceu a flor, mas não conseguiu. Sentiu-se um tolo, incapaz de compreender qualquer coisa, até a básica diferença entre os seres.

Ao vê-la passar, o irmão de gravata não titubeou:

— É traveco, um pervertido passando por mulher.

— Ou mulher, tão gostosa que parece um traveco — ironizou o japonês.

— E aí? — disse o negro ao de cabeça raspada, vendo-o chegar — Conferiu se tinha bolas?

— Não. Não consegui.

— Como não? — indignou-se o de gravata. — Não viu se era traveco? É claro que é, meu! E a gente querendo passar pro sardento...

— Logo ele que odeia essas merdas — disse o negro.

— Não odeia mais do que eu — garantiu o japonês, fitando os olhos do de gravata.

— Mas você não percebeu, assim de perto, que nada ali era natural? Peito, bunda, cabelo, até os olhos, daquela cor esquisita, falsa? — continuou o negro. — Aliás, foi ela quem você comeu?

— Não sei. Não a reconheci, mas achei que me olhou como se me conhecesse. Tinha tanto ódio nos seus olhos... E ninguém odeia quem não conhece. Ela me olhou de uma maneira... Eu não entendi o seu olhar. E fiquei sem reação por causa da força que ele tinha. Uma força que não sei se é boa, não sei se é má. Uma coisa tão esquisita. Sabe, não sei quanto ao peito, quanto às bolas, mas seus olhos, eles com certeza... — hesitou, mas admitiu — eram naturais.

Não querendo entender nada, aquele papo besta, o de gravata não pensou duas vezes:

— Ô garçom, mais uma breja! Pessoal, falando em bolas, alguém viu o penalty que aquele filho da puta perdeu?

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Dois irmãos



Foi no abismo do ciúme que se viram, se tocaram, se odiaram, a si e ao outro, foi dentro da ferida, da agonia do ciúme que se perceberam, a si e ao outro, e saíram pra tomar um café. Eram irmãos, sem querer, sem permitir, não tinham escolha, ou ao menos não queriam fazê-la. Mas estavam ligados, na dor, no prazer, no amor, no ódio, no medo, por algemas, cordas, mordaças, chicotes, por uma coleira. Tomavam aquele café prestando atenção no preto e no amargo. Pensavam juntos, em silêncio, por que admitiam dividir o mesmo homem, por que admitiam permitir que um único homem os usasse impunemente, por que consentiam sofrer o azedo do ciúme enquanto esse mesmo homem tinha seu ego massageado? O que era esse homem? O que era o toque dele no outro, na sua frente? A eles não eram permitidos outros toques, às vezes nem o próprio, outros corpos, a eles só era permitido que aguentassem a realidade de que um homem superior tinha o direito de usufruir de quem e quantos desejasse. O ciúme era um doce beijo, precedente ao duro toque de um Dono, de um Mestre que existia para que se conhecessem, para que mergulhassem em todas as agruras que agora chamavam de prazer. Mas qual era mesmo o prazer? Um rompeu o silêncio: qual seu nome, onde mora, idade, perguntas tolas, respostas já conhecidas, mas alguém precisava falar. Ouve que música? Sempre a música dá um toque especial à conversa, falaram dos ingleses, dos americanos, dos franceses, dos alemães, mas divergiram mesmo foi sobre os brasileiros, sobre uma falta de criatividade pós-moderna, sobre os magníficos anos setenta, sobre Chico, Caetano, Ney, sobre o funk, punk dos pardos, sobre o sempre frágil rock nacional. Falaram de novelas, séries, filmes, reality shows, encontraram a literatura, Clarice, Caio, Pessoa, Helder, Torga, Sade, fizeram analogias e chegaram enfim às suas vidas. O papo já tinha cor. Um já era agradável ao outro. Riram, sorriram, se olharam, balbuciaram segredos, murmuraram fragilidades, dorezinhas, safadezazinhas, lacrimejaram a infância, blasfemaram. Eram irmãos, sim. Era claro. Porque nossos irmãos estão perdidos pelo mundo, porque escolhemos a nossa família, aquela verdadeira, o nosso laço, porque somos eternamente responsáveis por aqueles e por aquilo que cativamos, e pequenos príncipes ou não, um era cativo do outro, amigo do outro, porque se viram no mesmo caminho, com as mesmas ansiedades, eram almas gêmeas, necessitadas das mesmas vivências, com a mesma sede, com a mesma fome, eram duas crianças cheias de medo, precisando enfrentar os mesmos fantasmas. Perceberam-se partilhando da mesma solidão, caindo de um mesmo precipício, se viram escombros de uma mesma desgraça. O ciúme perdia o sentido, porque eram irmãos, cúmplices, entenderam perfeitamente que a dor de um era a dor do outro, tiveram compaixão, se abraçaram, disseram não se preocupe, eu sou teu amigo, nunca vou te abandonar. Sabiam-se donos de si, independentes, responsáveis pela mesma experiência que escolheram para sanar seus males, nem superiores nem inferiores, companheiros de estrada. O Mestre, isto lhes era só um detalhe.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

a distância



como você dorme?
pra que lado você olha?
quem você enxerga?

de que jeito segura o talher,
de que maneira suspira de saudade,
que poesia te estupra?

o que te faz rir,
te deixa à flor da pele,
qual a bagunça dos seus lençóis?

como é a água que te refresca
a garganta, o corpo,
essa vida inteira?

que cores chegam aos teus olhos,
que sabores te envolvem,
que opiniões te absurdam?

como é ter essas mãos,
esses olhos,
suas canelas sem vergonha?

me diz devagar,
suave,
machucado:

como é ser tão lindo assim?

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

O abismo

Nu, ele estava nu, diante de um abismo. O seu corpo e a sua alma, cada qual com sensações distintas, ordenavam que ele desse mais um passo, e caísse.

Foi assim que se sentiu naquela tarde ensolarada de domingo. Luz não faltava. A ninguém. O abismo era tudo aquilo que explodia dentro de si, e que não podia controlar. Uma vez aceito o desafio de tocar os limites do seu afeto e do seu desejo, ele não podia voltar atrás. Já estava lá, naquele quarto, com aquele desconhecido amarrado na cama, sem roupa alguma, as pernas separadas, erguidas, e tudo aquilo que lhe diminuía como homem exposto, à espera. Ele olhava bem aquele corpo na cama, e pensava como reagiria ao toque que ganharia. Seu coração já estava acelerado, a sua pele, vermelha, as suas mãos, frias. Era desespero o que sentia, era pavor, e quase um ódio.

Nesse quase é que abriram a porta. Seu Mestre chegara. Pelo menos o homem a quem acostumara chamar de Mestre até aquele momento. Seu Mestre, seu amante, seu amigo, ele entrou no quarto calmamente, não tremia, não suava, até sorria, como se nada o abalasse, como se não tivesse dúvidas nem medo. Tanta serenidade machucava aquele menino, agora um indefeso menino, que tinha aceitado arranjar um corpo novo para o seu amante, cansado da mesmice, da rotina, cruel assassina das relações. Aquele menino havia aceitado conhecer o abismo, mas o seu Mestre era apenas serenidade.

O Senhor e agora Dono daquelas duas vítimas no quarto beijou a testa molhada do seu servil menino e cuidou de observar o desconhecido na cama. Reparou nos nós, na qualidade da corda, na venda que impediria a visão por toda aquela tarde e na mordaça, um anel que mantinha a boca aberta, o suficiente para que coubesse um pênis ereto. Reparou também se o jovem era bonito, a seu gosto, e se estava limpo. O Mestre não suportava sujeira.

Mas tudo ficou um pouco mais sujo, ao menos para o menino escravo que presenteava o seu amante Senhor. O ciúme era uma bobagem, o Mestre lhe dizia; uma bobagem que doía, o menino pensava. Mesmo assim, para o bem da relação, era preciso tentar, pelo menos tentar, ver como seria, ceder às necessidades de seu Mestre, por mais tolas que lhe parecessem, tolas e nocivas. O Mestre inclusive dera permissão ao menino para que conhecesse outros homens (não outros Senhores, claro), mas o menino não precisava daquilo, recusava a liberdade. O que o jovem servo precisava era conceder as brechas que seu Mestre queria, para que o elo entre os dois continuasse. E com todo o sol que invadia aquele quarto, a luz faltou. Talvez o momento em que se fecham os olhos para pular no abismo.

Obedecendo a uma ordem, o menino começou a acariciar o pau do seu Mestre sobre a calça, enquanto ele olhava o terceiro ali amarrado. O escravo ajudava o Senhor a se excitar com aquela imagem. Depois fez mais: participou de cada toque, cada movimento, o menino conduziu o tempo todo o corpo do Mestre ao corpo na cama.

Era só fogo dentro de si. O menino tremia, fraquejava, dilacerava-se a cada gemido de prazer do seu Dono. Ele não entendia tanto êxtase, embora o seu corpo algumas vezes também expusesse alguma excitação. Sim, o menino estava excitado, ao mesmo tempo em que tinha vontade de chorar. O menino sentia raiva do seu corpo, porque gozar a dor que vem de fora, isso o seu Mestre tinha ensinado, mas como gozar a dor de dentro? Uma tempestade de dúvidas lhe invadiu a alma. Um enxame de “por quê?” e “para quê?” lhe picava a pele. Talvez fosse o momento de uma escolha difícil, contraditória ao caminho que escolhera. O prazer ou a dor. Seu limite havia chegado, era preciso escolher.

E ele não escolheu. Agüentou o que ainda havia ali. Foi obrigado a lamber na cara do desconhecido o prazer viscoso do seu Mestre. Foi obrigado a se masturbar enquanto fazia isso e a gozar vendo seu Mestre tocando aquele corpo. Fez. Nem sequer reclamou.

Anoiteceu. O desconhecido havia deixado o quarto há poucas horas, e o menino escravo esperava, sentado no chão, escorado num canto da parede, o Mestre terminar seu banho. De volta, o Senhor agachou-se próximo ao menino, fitava-o, tinha no rosto uma expressão diferente, não era aquele sorriso de prazer. O Mestre estava sério, ponderava e, o menino pensou, parecia trazer dentro de si enfim uma dúvida. O Dono daquele garoto sabia o quanto significava aquele momento, o quanto tanta coisa dependia daquilo que havia acontecido e, tentava perceber, torcia para que descobrisse um olhar de afeto, de satisfação naquele escravinho de que tanto gostava. O menino buscava o oposto, buscava um “basta, isso não acontecerá mais”, porque “esse prazer doentio me machuca”. Ninguém encontrou nada e ambos sentiram na espinha o frio torturante da incerteza. Estavam diante de um abismo, nus, e talvez as coisas não tivessem mais o mesmo significado. Mas ainda era preciso decidir se dariam, e qual seria, o próximo passo.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Sua Majestade

A Meus pés, de joelhos, cabeça baixa, à Minha frente, à espera de algo Meu que ele não tem certeza do que será. O seu olhar baixo, fixo em Minhas botas, a sua vida, ali, à mercê da Minha vida. Eu Me pergunto se ele sabe a dimensão da sua grandeza, o quanto ele significa para tanta gente. Um homem de poder, um rei, um homem com tantos outros homens a viver de joelhos sob seus caprichos e suas vontades, esse mesmo homem ajoelhado diante do Meu capricho e da Minha vontade. Um rei a Me chamar de Mestre, Eu, Um entre tantos plebeus. Qual a força que Eu exerço sobre o coração desse homem? Desejo, amor? Por que justo a Mim ele se entregou? Eu Me excito com a sua subserviência, é um orgasmo vê-lo em silêncio, indefeso, aguardando uma ordem Minha. ele nem sequer Me questiona. Tenho a impressão de que Eu controlo tanto a sua vida que poderia determinar o fim dela. ele morreria para o Meu prazer. Porque ele é Meu, como são Minhas estas botas que aquecem os Meus pés.

Mas ele é forte, Eu sei e vejo. Vejo que é forte para além do que seus músculos fazem supor. E ele é sábio. Às vezes, em momentos em que sou mais Meu plebeu que seu Mestre, chego a temer transparecer alguma ignorância e permitir que seu íntimo caçoe de Mim. Eu sei que o domino porque posso, porque é de Minha natureza estar acima e da natureza dele estar abaixo, mas sei também que o domino porque ele quer. Eu reflito sobre sua submissão, sobre seus limites, sobre nossos limites, e penso como será se ele Me contestar, como será se ele ficar em pé e Me encarar. Será que desmorono? Será que o venço e o coloco de novo de joelhos? Que força sua submissão exerce sobre Mim? Será que Eu o amo? E sou Mestre ou escravo desse amor? Porque Eu sou Dono incontestável desse homem a meus pés; esse homem que, de joelhos, de olhos baixos, espera a Minha ordem. Mas ele é um rei. Esse homem é um Rei, eu sei.

terça-feira, 28 de julho de 2009

PLC 122/2006


Sabe o que é violência?

É ter de se esconder num beco escuro, numa casa fétida, cheia de fumaça, pra receber um beijo. É depois de tanto carinho no escuro dar no claro um tímido e frio aperto de mão como despedida. É ser censurado num bar escroto por um homem escroto que acredita realmente ter a razão. É ouvir piadas sobre o que tanto lhe machuca. É não poder paquerar na escola, namorar no portão. É crescer calado, curvado. É não poder contar à mãe que está amando.

É tudo tão violento que eu não sei, de verdade eu não sei, como isso pode não ser crime.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Paciência

Tenta achar que não é assim tão mau,
exercita a paciência. Guarda os pulsos pro final.
(Pitty)


Paciência para não desanimar. Para achar um bom trabalho, gostá-lo diariamente, acordar, levantar, matar o sono, para encontrar um bom amor, ou conquistá-lo, vai que ele tem outro ainda no coração, vai que você ainda não faça o tipo dele, paciência para se gostar, para se transformar, o corpo, o visual, a alma, e se gostar a cada etapa, paciência para a família, para os amigos, para qualquer um na rua, paciência para todos os aspectos da sua vida que precisam se aperfeiçoar, e ao mesmo tempo, porque às vezes você sente fome e sente sono no mesmo momento, porque às vezes você sorri estando triste e chora porque reconheceu a felicidade, paciência, paciência, paciência, para superar todos os limites, para agüentar a dor enquanto se supera, paciência para existir todos os dias, para correr atrás do tempo perdido, para não perder tempo, para não se precipitar, paciência para dançar devagar, no ritmo que der, paciência enquanto a sabedoria não chega, enquanto a coragem não chega, enquanto a maturidade não chega, enquanto a alegria não vem, paciência porque se está vivo, porque não há nada a fazer além de viver, paciência porque a velhice chega, o desejo chega, a responsabilidade chega, porque o amor não veio, porque a solidão não vai embora, paciência, coração, paciência com esse medo, chora se quiser, mas paciência.


 
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